segunda-feira, 2 de junho de 2008

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Santiago, diário de uma viagem!


Quarta-feira, 21 de Maio
Pampilhosa 18.48h.
Embarcamos no Sud-Expresso rumo a Handaya.
Primeira dificuldade, colocar as bikes na nossa cabine, onde também teríamos que viajar e dormir… Não foi fácil, mas lá conseguimos. A Epic foi sem rodas pendurada nos cabides (!) a Rocky Montain, foi também sem rodas numa prateleira das bagagens e a Cannondale com a roda da frente montada lá se encaixou entre as outras.
Na hora de baixar os beliches para dormir, houve necessidade de pequenos ajustes, mas nada de muito complicado.
A viagem foi normal, algumas idas ao bar e por volta das 23.00h, decidimos dormir.
Por volta das 06.00h o “pica” veio acordar o pessoal, para tomar o pequeno almoço e começar a preparar a descarga.
Quinta-feira, 22 de Maio
(Irun -> Saint Jeant Pied-Port, 104 km)
Irun 07.10h
Chovia em Irun e tivemos a noticia que os comboios em França estavam parados devido à greve.
Teríamos que ir a pedalar até Baione onde haveria um transporte para Saint-Jean Pied de Port, ao final da tarde…
Ainda fomos à estação de Handaya ver se haveria alguma novidade boa, mas nada…
Aqui conhecemos um francês de Nice que acabava de chegar de Portugal (veio também no nosso comboio) por onde tinha andado 3 meses de bicicleta! Simpático, ainda nos ofereceu um mapa da zona dos Pirinéus.
Começou a chover, fomos ao Lidl comprar água e o Pedro comprou por engano água com gás! Ehehe!
Lá fomos então rumo a Baione, passamos por Biarritz e primeiro furo logo à saída de Handaya! Lá houve que trocar a câmara à Epic.
Quando chegamos a Baione, constatamos que a greve era mesmo total e o transporte que haveria até Saint-Jean Pied de Port seria um autocarro, que não levaria as bikes!
Solução? Pedalar até Saint-Jean Pied de Port
Sempre com a chuva a ameaçar, almoçamos em Baione e recomeçamos a viagem rumo a Saint-Jean.
Chegamos por volta das 16.00h, com 104 km feitos assim logo sem contar!
Em Saint-Jean Pied de Port, fomos ao Gabinete de Apoio ao Peregrino, onde nos registamos, onde e nos “ofereceram” a vieira. Deram-nos também alguns concelhos sobre a viagem. Simpáticos!
Houve depois necessidade de procurar onde dormir. Tarefa complicada em Saint-Jean…
Acabamos por escolher um albergue particular, onde se podia fazer tudo (ou quase tudo) menos andar calçado!
A senhora dona do albergue tinha uma camada de esterco nos pés que metia medo, os seus gatos e cães acomodavam-se entre os sacos cama dos peregrinos, mas sapatos ou chinelos é que não! “No Shoes!” gritava ela! Inacreditável!
Escolhemos os beliches, banhinho tomado e jantar.
Deitar cedo que o dia seguinte seria duro!

Sexta-feira, 23 de Maio
(Saint Jeant Pied-Port -> Pamplona, 78 km)

Sabíamos pelo que tínhamos lido e pelo que nos tinham contado que a subida até Roncesvalles seria difícil. E foi!
Foi duro, duríssimo, muitas vezes com a “avozinha” engrenada e os peregrinos que iam a pé, quase que iam à mesma velocidade que nós!
Esta subida aos Pirinéus é espectacular, as paisagens, as vacas, os cavalos selvagens, as subidas “orgásmicas” como as baptizou o Mário valem bem a pena.
Depois as descidas! Ui! Os cerca de 4 km de descidas até Roncesvalles dão por muito bem empregue o esforço que foi feito a subir! Singles-Tacks do melhor que fiz até hoje! Os peregrinos que seguiam a pé passaram-se com a velocidade que passamos por eles, creio que todos nós nos esquecemos por um tempo, que esta viagem era longa e que íamos carregados com os alforges! Foi curtir a descida como se não houvessem tantos quilómetros pela frente!
Já em Roncesvalles uma encorajadora placa indicava que faltavam 790 km para Santiago!
Comemos um “Bodadillo” o primeiro de muitos e rumamos até Larrasoaña, onde éramos para dormir.
Infelizmente fomos discriminados pela Hospedeira do Albergue, não nos deixou sequer passar uma água pelas bikes e “despachou-nos” dali para fora.
Decidimos seguir viagem e acabamos por pedalar até Pamplona. Fizemos uns trilhos espectaculares junto a um rio. Numa das paragens encontramos um Italiano que seguia a pé e que tinha uma namorada Portuguesa. Fez questão de que o Pedro falasse com ela ao telefone.
Este dia ficou marcado pela chuva, pelo frio, alguma lama e por 78 km feitos. Duros….
Já em Pamplona encontramos aquele que foi o melhor albergue que dormimos!
Uma antiga catedral, transformada em albergue. Espectacular!
Conhecemos três Italianos (2 homens e 1 senhora) que seguiam também de bike.


Sábado, 24 de Maio
(Pamplona -> Logroño, 125 km)

Este dia foi mau, muito mau!
Na emblemática subida para o “Alto do Perdón” apanhamos um banho de barro! Lama, lama, muita lama. As bikes ficaram irreconhecíveis!
A Rocky Montain, ressentiu-se e partiu o Drop-Out!
Drop-Out suplente só havia um e era um Specialized…
Solução de recurso, transformar a Rocky Montai numa “single speed”…
Sabíamos que esta solução não era a melhor, mas de momento e para sair de onde estávamos não era possível fazer muito mais.
Ainda rodamos 10 a 20 km nestas condições, mas a cada solavanco a corrente saltava. Paramos para pensar o que fazer. Era Sábado e estava tudo fechado. Lojas de bikes só em Logroño. Representante da Rocky Montain, não se sabia onde havia… Telefonemas para Portugal e a “coisa” começava a ficar feia…
Assim e do meio do nada surgem 3 peregrinos BTT’istas que logo param para saber o que se passava. Lá lhes explicamos e um deles saca do telefone e começa a fazer chamadas… Nós olhávamos entre os três sem perceber o que ele estava a fazer, até que perante as nossas caras de admirados um deles diz-nos: “É que ele tem uma loja de bicicletas em Madrid!”
Então o nosso amigo Jesus, tinha acabado de falar “apenas” com o importador da Rocky Montain de Espanha!
Eheheh!
Deu-nos o seu número de telefone e disse-nos que o importador iria tratar de localizar uma “pata”. Assim que tivesse alguma novidade que nos ligava.
Foi-nos levar a um local onde poderíamos apanhar um autocarro até Logroño e seguiu viagem junto com os seus 2 companheiros!
Enquanto decidíamos o que fazer, decidi tentar com a “pata” suplente que tinha levado da Epic, arranjar uma solução que nos permitisse seguir caminho, mesmo que limitados em parte. Porca daqui, abraçadeira dali, mais uma chave a fazer enchimento, monta a roda, experimenta e funciona! Apenas não era possível engrenar as mudanças máxima e mínima do carreto traseiro, todas as outras entravam, se bem, com “jeitinho”!
Seguimos viagem por estrada até Logroño, perdemo-nos pelo menos 2 vezes e fizemos no mínimo 20 a 25 km a mais, graças a um “Manolo” que nos indico um caminho errado.
Chegamos a Logroño muito tarde, molhadíssimos e muito cansados (pelo menos eu!).
O Albergue estava cheio e fomos dormir a residência de um Padre (um pouco doido por sinal…). Numa conversa simpática entre o Pedro e o Padre, o Pedro disse-lhe que a santa que estava num quadro na parede era uma santa que tínhamos visto nesse dia! Ui o homem foi aos arames porque aquela era a “sua” santa! Eheheh!
Fomos jantar uma pasta (para variar….) a um restaurante italiano onde um grupo de jovens espanholas faziam um barulho impressionante! Doidas!
Acabamos a dormir nuns colchões no chão no escritório do Padre, mas aquela hora e depois do dia que tínhamos tido tudo era bom!

Domingo, 25 de Maio
( Logroño->Belorado, 75 km)

Saímos de Logroño sempre com cuidado por causa da “pata provisória”.
Paramos em Najera para carimbar os passaportes e quem aparece? Os nossos amigos espanhóis que ficaram primeiro admirados por termos chegado ali e quando viram o que tínhamos feito na Rocky Mountain, passaram-se!
Acabamos por rodar juntos até Belorado, por entre trilhos espectaculares e bastante rolantes.
Chegamos a Belorado cedo e dormimos num albergue porreiro e recente.
Depois de jantar ainda conhecemos umas irmãs Portuguesas de Felgueiras que trabalhavam em Belorado.
Foi ela que nos explicou o que era o “Chique-Chique”, um fenómeno que nos tínhamos apercebido em Logroño, mas que não sabíamos o que era!
Nesta noite o Pedro queria cortar a barba, mas nós não deixamos!

Segunda-Feira, 26 de Maio
( Belorado-> Castrojeriz, 108 km)

O despertar em Belorado foi forçado pelos peregrinos que seguiam a pé….
Muito cedo. Acabamos também por nos levantar e seguir viagem.
Choveu muito e estava um frio de rachar. Em Burgos acabei por comprar um casaco de Inverno, que foi a melhor coisa que poderia ter feito!
Estávamos a ver a catedral de Burgos (muito linda por sinal) e começou a cair granizo!
Devido à muita lama que havia nos caminhos, acabamos por rolar a maior parte do trajecto por estrada, não fosse a “pata provisória” fazer das suas.
Em Castrojeriz os albergues estavam todos cheios e acabamos por dormir num pavilhão dentro de um Parque de Campismo.
Ao jantar conhecemos o Xavi, um espanhol meio amalucado!
Depois de jantar fomos ter com os nossos amigos espanhóis ao hotel onde estavam hospedados e decidimos que rodaríamos juntos até Santiago.
O Jesus decidiu ligar novamente ao importador da Rocky Montain que já tinha conseguido arranjar a “pata” e ia enviar por Express-Mail para o hotel onde eles iam dormir em Astorga de 4ª para 5ª feira. Porreiro!

Terça-Feira, 27 de Maio
( Castrojeriz-> Sahagún, 88 km)

Tal como tínhamos combinado na noite anterior, viemos juntos com o pessoal da Mammoth.
Para começar bem o dia, nada como uma subida logo à saída de Castrojeriz. Subimos em cerca de 4 km, dos 300 para os 1000 metros de altitude!
O resto do caminho foi rolante pelo que acabamos por chegar cedo ao nosso destino, Sahagún.
Em Sahagúm dormimos num albergue porreiro feito numa antiga igreja. Antes deu tempo para lavar as bikes e passear um pouco pela cidade.

Quarta-Feira, 28 de Maio
( Sahagún->Astorga, 112 km)

Neste dia passaríamos por Léon.
Na verdade a catedral de Leon é fantástica. Ainda tentamos via webcam da autarquia de Léon que fossemos vistos pelos nossos familiares, mas não conseguimos.
O dia ficou marcada para além da chuva e do frio pelas quedas. Primeiro foi o Raul (espanhol) depois fui eu em pleno centro de Léon que escorreguei num passeio, depois o Raul outra vez (!) na praça de Léon e finalmente o Santiago (tb espanhol) a desviar-se do Jesus!
O percurso em si, nem foi difícil, rolamos bastante nas imensas rectas com pedra redonda e solta.
Chagamos a Astorga já tarde. A primeira surpresa (boa) a “pata” para a Rocky Montain estava na recepção do hotel dos espanhóis! Depois no albergue, mais uma surpresa o hospedeiro era Português de Mangualde, embora estivesse em Espanha há muito tempo.
O Albergue que aparentemente era bom, estava cheio e as condições para dormir não foram as melhores, mas com o cansaço tudo se “perdoa”…
Ao jantar fomos “castigados”… A senhora do restaurante talvez por termos pedido de 1º prato, massa e de 2ª Almôndegas com massa (!) encheu de tal maneira os pratos, que foi a primeira vez que foi comida para trás… Nem o Mário conseguiu comer tudo!

Quinta-Feira, 29 de Maio
(Astorga -> VillaFranca del Bierzo, 82 km)

Para este dia estava reservada a grande subida até à Cruz de Ferro. Foram 33 km’s sempre a subir e os últimos 10, uiui !
Chegados ao topo, tempo para as fotos e depois preparar para descer vertiginosamente onde chegamos a atingir 70 km/h !
Almoçamos em Ponteferrada (bocadillos…) e depois rolar até Villafranca de Bierzo.
Chegados lá, encontramos um albergue explorado por um casal de brasileiros muito simpáticos. Acabamos por dormir num ex-biblioteca com capacidade para 15 pessoas, mas ficamos sozinhos! Maravilha!

Sexta-Feira, 30 de Maio
(VillaFranca del Bierzo->Portomarín, 98 km)

Mais um dia, mais uma subida “mítica”…
“O Cebreiro” no alto dos seus 1320 metros de altitude era imponente a cada pedalada. Chegar lá cima é gratificante!
A igreja tem uma força impressionante, mesmo para aqueles como eu que não são católicos praticantes. Entrar lá dentro arrepia, não sei muito bem porquê…
Almoçamos lá em cima e fomos literalmente roubados.
Depois foi descer até Portomarín por trilhos espectaculares embora que algo “mal cheirosos”.
A mim deu-me a “marreta” ! lolol….
Para o fim do dia já a chegar começou a chover muito e o frio era também muito.
O primeiro albergue que apareceu foi onde paramos. Estava cheio, muito cheio e o cheiro que saía dos dormitórios era impressionante. Na cama debaixo do meu beliche estava um tipo francês já velhote que cheirava a queijo, daquele que cheira muito mal! Credo!
Ao meu lado dormia uma velhota que insistia a respirar para cima de mim. Bolas! Virei-me ao contrário com a minha cara nos seu pés! Estava bem melhor!

Sábado, 31 de Maio
(Portomarín->Santiago de Compostela, 97 km)

Era o dia da chegada!
Sabíamos que seria um dia longo e que a chegada a Santiago era a subir!
A expectativa da chegada gera alguma emoção.
O percurso foi feito inicialmente por caminhos espectaculares até uma pequena aldeia onde um padre Galego, nos explicou o porquê do “seu” Cristo estar apenas pregado à cruz por um braço e o outro estar caído. Dentro da igreja a vontade de rir foi mais forte que todos nós muito por culpa, pela forma como o padre falava.
Depois de almoçar numa “pulperia” em Melide, um polvo bem à maneira faltavam ainda pedalar cerca de 50 km’s para o final.
Para mim foram 50 km’s de algum sacrifício, pois o cansaço apoderava-se das minhas pernas.
A subida ao “Monte do Gozo” foi desgastante, mas chegar lá cima e ver o monumento ao Papa dá a sensação de dever cumprido! De lá já se visualizam as torres da catedral e a emoção é realmente grande! Foto da praxe junto ao monumento e descer até Santiago onde por incrível que pareça as marcações das setas amarelas que até ali nos guiaram, desaparecem! Entramos nas ruas antigas de Santiago com as lágrimas nos olhos e a entrada na praça é a apoteose de 10 dias em cima da bike!

Palavras?
Espectacular! Único!
Tudo o que se possa dizer sobre esta aventura é pouco e é impossível descrever os sentimentos que se geram ao longo destes caminhos.
Uma experiência de vida única e que espero repetir num futuro próximo!
O companheirismo entre nós foi espectacular também. Conhecermos os nossos companheiros de viagem, Jesus, Santiago e Raul foi outra das coisas boas que aconteceram!
Foram cerca de 980 km´s de boa disposição, algum sacrifício e BTT ao mais alto nível!